Espaços autogestionados trouxeram realidades das diferentes regiões do Brasil e, através de exercícios práticos, provocaram a reflexão e a ação das participantes.
Por Luiza Lusvarghi
No segundo dia do seminário Nacional, ao cair da tarde, foram realizadas oficinas autogestionadas, conduzidas por integrantes de grupos presentes ao encontro. Estas vivências foram concebidas para funcionar não apenas como instrumentos de conscientização e espaço de discussões, mas também como uma preparação para o debate e incentivo à formulação de propostas. A idéia era que cada participante conseguisse não somente ampliar a sua visão sobre o imaginário feminino na mídia, mas ser capaz de reproduzir experiências semelhantes em suas comunidades e seus estados.
A Red Dominicana de Periodistas com Perspectiva de Género, um grupo da República Dominicana que veio para o encontro no Brasil, coordenou a oficina “Tiene sexo la notícia?”, na qual as participantes foram divididas em pequenos grupos e recebem uma página de jornal para analisar as notícias do dia. Foram analisadas todas as notícias em que aparecesse uma mulher, como testemunha, como fonte, como vítima, e o lugar que ela ocupava nesta matéria, a forma como ela era tratada. A idéia era sensibilizar as participantes a olhar para a notícia sob a perspectiva de gênero. Foram analisadas matérias recentes da imprensa brasileira, como o caso do piloto, acusado pelo estupro de uma menor, que jogou a mulher fora do carro numa rodovia em movimento, raptou a filha de 5 anos, roubou um avião em Luiziânia (GO) e arremessou a aeronave num estacionamento de Brasília.
A oficina “Juventude e mercantilização do corpo e da vida das mulheres” usou a canção “Piercing”, de Zeca Baleiro, para discutir a transformação do corpo da mulher em mercadoria dentro da sociedade industrial. A técnica utilizada para as discussões foi a da associação de palavras, uma das formas encontradas para entender o significado que essa “coisificação” da mulher assume dentro do nosso cotidiano. Além de conceitos de economia e sociologia, cada uma era incentivada a estabelecer associações das imagens da música e das palavras com experiências vivenciadas no dia-a-dia que traduzissem esses conceitos.
O Centro de Mulheres do Cabo (PE) e o grupo Themis (RS) orientaram a oficina “Músicas Machistas – Nordeste e Sul”. O alvo principal das discussões nesta oficina foram os grupos de forró, mas também foram abordados programas de rádio e TV que assumem discursos reacionários e estimulam a violência contra a mulher e algumas das ações que vêm sendo impetradas por estes grupos para coibir a comercialização de letras ofensivas à mulher. A canção “Bomba no Cabaré”, do grupo Mastruz com Leite, mereceu acalorada discussão. Um dos grandes sucessos das tradicionais festas juninas da Região Nordeste, a música foi condenada a pagar R$ 500 mil de multa, mas recorreu. O grupo Themis ganhou destaque ao vencer uma ação no valor de R$ 500 mil por “Tapinha”, contra a empresa Furacão 2000, em 2003, mas não conseguiu incluir na ação a Sony Music e a União, por permitir a sua difusão. Outra música do gênero que seguiu carreira foi “Lapada na Rachada”, do grupo Saia Rodada. Essas músicas comerciais, desde a década de 90, dominam o mercado musical nacional em detrimento de repertório clássico da MPB ou mesmo de grandes nomes do mercado internacional.
A beleza impossível, oficina proposta pela União por Moradia Popular e Bloco Afro Ilê Aiyê, da Bahia, inspirou-se no livro homônimo de Rachel Moreno para discutir quem é essa mulher ideal que os veículos de comunicação vendem e até que ponto esses padrões dominam as nossas relações com os homens e com as próprias mulheres. A questão da mulher negra ganhou destaque nessas discussões, pois o grande ideal de beleza globalizado é o padrão ariano personificado por modelos como Gisele Bundchen. Essa mulher loura e magra assombra o imaginário pós-moderno, impondo uma autentica ditadura do prazer e menosprezando a grande maioria das mulheres, que não se enquadra neste biótipo, consideradas inadequadas. A mídia promove, através destes modelos, o rebaixamento continuo da auto-estima de mulheres das nações cujas populações não representam esse padrão.
Na oficina “O direito à comunicação e leitura crítica da mídia”, promovida pelas integrantes do Intervozes, as mulheres analisaram diversas revistas, de Carta Capital a Nova, divididas em diversos grupos, para realizar uma análise geral de cada publicação, identificar a que tipo de mulher se destinava a revista, qual a imagem da mulher que a publicação veiculava e qual a mulher que era excluída daquele conteúdo. As conclusões de cada grupo, de forma geral, como apontou Mayrá Lima, do Intervozes, davam conta do papel de reforçar velhos padrões de comportamento sexista que essas publicações desempenham no mundo contemporâneo. “Elas não se sentiram representadas de forma alguma na maioria dessas publicações”, contou. Algumas exceções, como a Carta Capital, embora não contivessem conteúdo ofensivo à mulher e defendessem posições mais abertas, denotavam uma política editorial fortemente voltada para o mundo masculino. A mulher só é considerada uma leitora potencial quando o assunto é cirurgia plástica e sexo.
Por fim, a oficina “Incidir na mídia para o controle social de políticas públicas de gênero e da mídia”, coordenada por Jacira Mello, do Instituto Patrícia Galvão, de São Paulo, foi voltada para o levantamento de opções estratégicas de ampliação da ação feminista no controle da mídia. As formas de intervenção incluem desde cartas e releases à vigílias. A organização de fontes e de cursos de media training são os grandes instrumentos de organização que capacitam a mulher e os movimentos a intervir de forma proativa para garantir os seus direitos junto a esses veículos. O assunto atraiu tanto as participantes que são lideranças comunitárias em suas regiões quanto empresárias como Ana Maria Bittencourt Viana, terapeuta holística que edita e distribui o jornal Mulheres em sua cidade, Palmas (TO). O veículo, com tiragem mensal de 5 mil exemplares, é distribuído gratuitamente e vive de anúncios. Para Ana Maria, é importante estar atenta a novas formas de introduzir discussões politicamente importantes para as mulheres, mas sem perder o enfoque de comportamento que tanto atrai o seu público. Participar da oficina, para ela, foi fundamental.



