Na primeira atividade do seminário, as participantes foram estimuladas a se conhecerem, se tocarem e trocarem impressões, experiências e propostas de intervenção política para desconstrução das imagens das mulheres na mídia

Por Marisa Sanematsu

A primeira manhã do Seminário “O Controle Social da Imagem da Mulher na Mídia” começou com um “sociodrama temático”, uma “modalidade de psicodrama com protagonismo coletivo”, explicou Marta Baião, do CIM – Centro Informação Mulher/SP, coordenadora da atividade, que contou com apoio de Rosa de Lourdes Azevedo, da Rede Feminista de Saúde/SP.

Afastadas as cadeiras do auditório e tendo música suave ao fundo, Marta Baião convidou as participantes a tirarem os sapatos e a se movimentarem pela sala, falando em voz alta o próprio nome, dando abraços, andando na ponta dos pés e nos calcanhares, esticando os braços e formando grupos de massagistas coletivas. Trabalhando com os corpos e as almas, “estamos fortalecendo as ‘guerreiras’”, brincou Marta.

Depois foi formado um grande círculo e cada integrante disse em apenas uma palavra o que estava sentindo naquele momento. Ouviram-se: “feliz, renovada, arrepiada, poderosa, esperançosa, acolhida, excitada, amada….”, entre outras sensações. “Temos aqui uma tarefa de muita importância, que é desconstruir as imagens que nos desqualificam e oferecer novas imagens de mulher na mídia”, disse Marta.

A partir desse momento cerca de cem mulheres vindas de todo o país formaram duplas para dizerem de onde vinham, o que traziam e o que esperavam levar.

A gente não se vê por aqui
Em seguida, todas trabalharam em grupos para debater sobre as imagens de mulheres que elas vêem na mídia – dividida nos segmentos publicidade, jornal, telenovela e programa humorístico – e como elas se sentem a respeito. Foram então convidadas a trabalhar as seguintes questões:

- Como eu me vejo na TV
- Como a TV me vê
- Como eu gostaria de ser vista

Conclusão: a maioria não se vê e quer ser vista como é. Além de denúncias e críticas, alguns grupos, como o que debateu publicidade, trouxeram propostas de ações, como um amplo e bem divulgado movimento de boicote de empresas que anunciam produtos usando imagens que agridem as mulheres e a criação de um prêmio aos “piores da publicidade”. Outro grupo propôs realizar uma discussão com o Conar (Conselho Autoregulamentação Publicitária) e fazer um trabalho nas faculdades, para introduzir a discussão sobre gênero e publicidade.

Um outro tipo de humor
O grupo seguinte respondeu à pergunta “como enxergamos as mulheres nos programas humorísticos” com uma lista de “tipos clássicos”, que incluíam, entre outros, a loira burra, a doméstica, a virgem imaculada, a sogra-demônio e a caipira ingênua. A relatora do grupo criticou em especial as imagens das não-brancas: as mulheres de qualquer raça/etnia são sempre massacradas nos programas humorísticos, apresentadas de modo estereotipado e pejorativo.

Apesar de a maioria dos programas mostrarem as mulheres sempre de forma estereotipada – citando Zorra Total, Show do Tom, A Praça É Nossa, Escolinha do Barulho, A Diarista e outros – há exceções, em especial mulheres que fazem “um humor bacana” e “inteligente”, como Dani Calabresa, da MTV, e Fernanda Young, de Os Normais. São exemplos de que é possível fazer humor sem apelar, e passar uma mensagem sem destruir a imagem da mulher. O grupo propôs a realização de um trabalho com os roteiristas de programas humorísticos, que incluiu a distribuição de cartilhas, a promoção de debates nas universidades que formam esses roteiristas, mostrando que há outras formas de fazer humor.

A novela cumpre um papel educativo?
“As novelas são grandes formadoras de opinião” e têm como público-alvo principal as mulheres, em especial as donas de casa. Partindo dessas considerações, o grupo que analisou as imagens de mulher nas telenovelas concluiu que elas são estereotipadas e não conseguem captar a complexidade e diversidade nas mulheres. Por exemplo, se a mulher é bem-sucedida, ela se masculiniza; a mulher inteligente é fria e a sexualmente ativa é desonesta.

O grupo criticou o tratamento dado pelas novelas às questões da religiosidade – sempre terminam com casamentos cristãos, mais especificamente católicos – e da sexualidade, em especial da diversidade sexual, lembrando que as telenovelas têm abordado questões políticas de gênero e raça, como as cotas, aborto, racismo, violência contra a mulher e outras.

Avançando um pouco mais, o grupo trouxe para debate os temas da concessão pública, da TV educativa e lançou uma pergunta: a novela cumpre um papel educativo?

O grupo lembrou a importância de ter uma estratégia para trabalhar na Conferência Nacional de Comunicação e sugeriu que, a partir do conhecimento da imagem da mulher na mídia, fosse realizado o debate sobre o papel das mulheres nos meios de comunicação.

Cobertura superficial e racista
A discussão sobre jornalismo apontou a falta de aprofundamento nas questões que envolvem gênero e raça/etnia. Um exemplo: o tratamento dado aos casos de violência contra a mulher. Não há uma abordagem contextualizada e aprofundada sobre as razões que ocasionam essa violência contra a mulher, assim como não há uma abordagem aprofundada sobre a questão do racismo. O grupo considera que a própria imprensa tem contribuído para reforçar o racismo e a violência.

Foram apresentadas também críticas à invisibilidade dos movimentos sociais, cujas ações só são consideradas notícias quando servem para reforçar a crimininalização de alguns movimentos; e ao preconceito contra as religiões de matriz africana, apresentadas apenas em seu aspecto cultural e não-religioso.

Como propostas: media training para o movimento e também para os jornalistas e cota de notícias sobre os movimentos sociais, que devem ter mais espaço como fontes noticiosas.

No encerramento dessa seção de vivência grupal, que proporcionou momentos de apresentação, interação e debate entre as participantes, Marta Baião lembrou o que já havia sido dito há pouco: “sabemos o que não queremos”. E completou: “estamos construindo o que queremos”; podemos começar interferindo nesse imaginário coletivo para que as TV respeitem as imagens das mulheres, como nos vemos no cotidiano, na vida social”.